profile

Raphael Donaire Albino

Os futuros da agilidade (se a arrogância nos permitir)


Nos últimos anos, temos visto uma onda crescente de questionamentos sobre a agilidade. Reorganizações, cortes estruturais e demissões reduziram o espaço para times e papéis tradicionalmente ligados à transformação ágil. Diante desse cenário, algumas perguntas se tornam inevitáveis:

  • Ficamos presas(os) em modelos?
  • Faltaram modelos que poderiam ter sido incluídos?
  • Será que a arrogância nos impediu de enxergar novas possibilidades?

Afinal, quando a agilidade começou a se tornar mais sobre frameworks e menos sobre princípios, talvez tenha perdido sua essência. Ficamos tão obcecados em "instalar métodos" e "conquistar certificações" que deixamos de lado a pergunta fundamental: quais problemas queremos resolver?

A arrogância que nos cega

A Teoria U, de Otto Scharmer, nos ajuda a entender essa crise sob uma nova ótica. Segundo Scharmer, quando as organizações entram em ciclos de certeza absoluta, elas perdem a capacidade de enxergar novas possibilidades. Ficamos presas(os) a padrões mentais rígidos, reforçando narrativas, crenças e práticas que podem já não fazer sentido.

Na agilidade, esse fenômeno se manifesta na fixação por frameworks e métodos como verdades absolutas. O resultado? Desensibilização e cegueira organizacional.

  • Ficamos presas(os) em uma única vontade: "só funciona assim".
  • Ficamos presas(os) em uma única perspectiva de mundo: "nós contra elas/eles".
  • Ficamos presas(os) em uma única verdade: "a agilidade é a resposta para tudo.”

Essas barreiras não apenas impedem a inovação, mas também geram colapsos estruturais. Como Scharmer coloca, quando as organizações chegam ao ápice da arrogância, em vez de construírem novos caminhos, passam a destruir o próprio ambiente no qual operam.

Será que é isso que está acontecendo com a agilidade?

Abrindo espaço para novos futuros

Se o futuro da agilidade depende de algo, é da nossa capacidade de abrir espaço para o novo. A jornada da Teoria U sugere que só conseguimos evoluir quando abrimos a cabeça, o coração e a vontade. Isso significa:

  • Suspender padrões do passado e questionar se o que funcionou até aqui ainda faz sentido.
  • Observar com novos olhos, entendendo o que as organizações realmente precisam agora.
  • Sentir a partir do campo, conectando-se com a realidade do dia a dia, e não apenas com modelos prontos.
  • Prototipar novas abordagens, experimentando mudanças e iterando constantemente.

O conceito de Sankofa, originado em tradições africanas, nos ensina algo semelhante: é preciso olhar para o passado para ressignificar o presente e construir o futuro. Isso significa que não devemos descartar tudo o que a agilidade construiu, mas sim reinterpretar suas práticas para que continuem relevantes no contexto atual.

Quatro futuros possíveis para a agilidade

O Futures Thinking (também conhecida como abordagem para nos fazer imaginar o amanhã) nos permite mapear diferentes cenários para a evolução da agilidade, com base nos sinais e padrões observáveis. A partir disso, podemos vislumbrar quatro caminhos possíveis:

  • Disciplina – a agilidade se adapta e continua relevante, talvez com novos papéis e práticas.
  • Transformação – a agilidade evolui para algo novo, se integrando a outras abordagens de gestão.
  • Crescimento e queda – o hype passa, e a prática se torna nichada ou perde força.
  • Colapso – a agilidade, como a conhecemos, deixa de existir, dando lugar a novas formas de trabalho.

Nenhum desses cenários é definitivo. O que determinará qual deles se tornará realidade é a nossa capacidade de abandonar verdades absolutas e explorar novos caminhos.

O desafio da diversidade e da inovação

A inovação raramente surge em ambientes homogêneos. Quanto mais diversas forem as referências e os pontos de vista, maior a nossa capacidade de criar soluções para problemas complexos.

No entanto, quando olhamos para os espaços de tomada de decisão — seja na tecnologia, na gestão ou na formulação de novos modelos organizacionais — percebemos um padrão preocupante: as vozes que moldam o futuro ainda vêm de grupos limitados, que compartilham repertórios e experiências muito semelhantes.

Isso cria um ciclo perigoso: sem diversidade de pensamento, ficamos reféns de velhos paradigmas e reforçamos modelos ultrapassados.

Se queremos um futuro sustentável para a agilidade, precisamos ampliar nossas redes, desafiar nossos vieses e abrir espaço para diferentes formas de pensar e criar.

O que podemos fazer agora?

Se queremos um futuro para a agilidade, precisamos mudar a forma como pensamos e agimos hoje. Algumas provocações para reflexão:

  • Estamos sentindo o ambiente onde atuamos ou apenas aplicando soluções prontas?
  • Nossos modelos de gestão consideram a adaptabilidade e o dinamismo das organizações?
  • Estamos olhando para o curto prazo ou considerando os impactos de longo prazo das nossas decisões?
  • Conseguimos desafiar nossas próprias premissas ou estamos presas(os) a verdades absolutas?

A Teoria U nos ensina que a verdadeira transformação acontece quando conseguimos reconhecer nossos limites e ignorâncias. Para quem trabalha com mudança organizacional, essa talvez seja a maior lição.

Se queremos que a agilidade tenha um futuro, precisamos parar de nos apegar a certezas e começar a construir novas possibilidades. Estamos dispostas(os) a abrir a cabeça, o coração e a vontade para isso?

Para continuar explorando o tema:

  • Podcast:Teoria U na Segunda Temporada do Pontes e Elefantes - ouça aqui
  • Livro:Dynamic Flow – Raphael Albino & Celso Martins - compre aqui.
  • Palestra:Os Futuros da Agilidade (se a arrogância nos permitir)Apresentada na Agile Brazil 2023 - assista aqui.

Nos vemos na próxima semana! 🚀

Raphael Donaire Albino

Esta newsletter foi criada para quem busca estar à frente em um mundo em constante evolução. Aqui, você encontrará insights valiosos sobre liderança, gestão moderna, pensamento sistêmico e desenvolvimento de produtos digitais, além de reflexões sobre o equilíbrio entre vida pessoal e profissional. Seja você uma liderança, profissional de tecnologia, empreendedora ou entusiasta do aprendizado contínuo, este espaço oferece conteúdos práticos, inspiradores e alinhados às demandas do século XXI. Junte-se a uma comunidade de pessoas que, assim como você, estão sempre em busca de crescimento e transformação. 🚀

Share this page