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Raphael Donaire Albino

Liderar sem cair na armadilha da autopreservação


Nos últimos dias, revisitei o livro Power: Why Some People Have it and Others Don't, do Jeffrey Pfeffer, e me peguei refletindo sobre como as dinâmicas de poder continuam sendo uma força invisível – mas decisiva – dentro das organizações.

Muito além das boas práticas de liderança ou da meritocracia, o livro nos faz entender que a ascensão e o poder passam por outros mecanismos, muitas vezes desconfortáveis de se admitir.

O poder não segue as regras

Ao contrário do que muitos acreditam, performance e sucesso não caminham lado a lado nas organizações. Pfeffer mostra que não há uma relação direta entre entregar resultados e conquistar posições de poder.

No mundo real, quem sabe jogar o jogo do poder – entendendo dinâmicas sociais, influência e alianças – tende a avançar mais rápido nas estruturas hierárquicas. E o mais interessante: essa habilidade não está, necessariamente, relacionada a intenções negativas ou positivas. Tudo depende de como o poder será exercido depois.

Poder sem consciência: um caso real

Tive a oportunidade de trabalhar com um executivo que é um exemplo claro do risco que Pfeffer aponta quando o poder se torna autocentrado e inconsciente.

Ele estava tão obcecado em manter sua posição que:

  • Desligou todas as pessoas que discordavam das suas ideias;
  • Só manteve ao seu redor quem concordava com tudo – um time de "yes-men";
  • Passava mais tempo planejando como proteger sua cadeira do que pensando em resultados reais para a organização;
  • Criou novos níveis hierárquicos apenas para beneficiar aliados, gerando um ambiente de favorecimento e desigualdade;
  • Vivia em estado de ameaça constante, vendo inimigos em todas as direções.

O impacto foi previsível: um ambiente tóxico, com desconfiança generalizada, pouca inovação e alto índice de turnover. Um cenário onde as pessoas não se sentiam seguras para questionar, e a própria performance da unidade de neg´øcio começou a deteriorar.

Esse caso me ensinou que, quando o foco do poder está apenas na autopreservação, o sistema organizacional adoece. O ambiente passa a confirmar os vieses de quem está no topo, e a diversidade de pensamento (tão relevante para decisões) desaparece.

Frases que me marcaram do livro

  • "O poder gera excesso de confiança, insensibilidade com os outros, estereótipos e a tendência de enxergar as pessoas como meios para a gratificação de quem detém o poder".
  • "O excesso de confiança e insensibilidade levam à perda do poder, pois quem está no comando fica tão centrado em si que ignora as necessidades de pessoas que podem se tornar adversárias".
  • "Você não pode controlar completamente quanto poder irá manter, mas pode deixar sua posição com dignidade e, assim, influenciar como será lembrado".
  • "Dentro das empresas, democracia é a exceção. Mesmo com estudos mostrando que delegar poder gera melhores resultados, pouco se avançou na redistribuição de poder nas últimas décadas".

Dicas para construir poder com consciência

Ao longo do tempo, percebi que criar poder pode – e deve – ser um exercício de responsabilidade. Não se trata de manipular, mas de entender o sistema e agir com intencionalidade positiva. Aqui estão algumas dicas práticas para construir poder de forma saudável:

  • Entenda as regras do jogo: conheça a cultura da organização e os "códigos" invisíveis de influência que moldam decisões e relacionamentos. Isso inclui entender quem são as pessoas influentes, quais valores não-ditos regem o ambiente e como as decisões realmente acontecem.
  • Construa alianças, não apenas conexões: poder é relacional. Relacionamentos de troca genuína (e não só de interesse) te colocam em uma rede mais resiliente. Pessoas que têm aliados crescem e aprendem mais rápido.
  • Torne-se relevante entregando valor: seja a pessoa que resolve problemas, que ajuda os outros a avançarem e que traz clareza em momentos de incerteza. Poder não se sustenta apenas no discurso – ele precisa ser sustentado pela entrega consistente de valor.
  • Use o poder para abrir portas: ao chegar em posições de influência, pense em como abrir espaços para outras pessoas. Isso fortalece sua rede de confiança e cria um ambiente mais inovador e seguro.
  • Observe e reflita constantemente: cuidado para não cair na armadilha da “síndrome do pedestal”. Revise periodicamente seus próprios comportamentos, incentive o feedback honesto e esteja aberto a mudar rotas.

Conclusão

O poder, quando mal utilizado, pode se transformar em uma armadilha para quem o detém e para toda a organização. Por outro lado, quando exercido de forma consciente e intencional, pode ser um catalisador de transformação positiva, ajudando a criar ambientes mais justos, colaborativos e inovadores.

O que temos feito, individual e coletivamente, para construir um ambiente de poder saudável ao nosso redor?

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Nos vemos na próxima edição! 🚀

Raphael Donaire Albino

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